paradoxos

Reconheço que não sabia o suficiente acerca de sofrimento e perda até há umas semanas.

Sim, vi partir algumas pessoas que amava ao longo dos anos. Mas foi a primeira vez que experimentei na pele, nos ossos, no peito a partida de alguém que me amava incondicionalmente. Ficamos mais pobres quando isso acontece. Tão mais pobres.

Como é que se sobrevive à dor, à ferida que parece não sarar? Como é que se volta à rotina, aos deveres, às expectativas dos outros? Como é que se acorda e adormece sem confirmar mentalmente que o que aconteceu realmente aconteceu? Quando é que os objectos, os pormenores nos podem trazer lembranças sem trazerem acoplada a dor lancinante?

O que me faz sobreviver é saber que a dor e a alegria podem ser companheiras de viagem. Que a incompreensão e as convicções podem viver no mesmo espaço exíguo da minha alma limitada e débil. Deus é Soberano e Deus é Bom. Agarro-me a estas certezas absolutas até me sangrarem os dedos. Porque deixada ao meu sofrimento, definho e desapareço. Saber que há algo maior do que eu, que há esperança segura maior do que a pior circunstância, permite esta harmonia paradoxal entre perplexidade e alegria. Permite que este lado da eternidade seja suportável e tenha propósito.

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contemplating mortality

‘… let us contemplate our mortality. shall dust exalt itself? the thoughts of the grave should bury our pride. (…) the serious meditation of death is enough to cure the swealing of pride.’ – thomas watson

 

{the song was a gift for my brother’s birthday a few days ago. we used to sit in our shared balcony in our childhood home and play guitar, sing and talk}

minguar.

o nosso neo-farisaísmo vem em todos os tamanhos e feitios mas é tão pernicioso quanto há dois milénios. vem mascarado, como é sua característica. é absolutamente expectável nos outros e especialmente em nós, mas ainda assim consegue surpreender-nos porque nos cega. há que agradecer as abertas, a luz que nos atinge certeira. resta-nos chorá-lo e minguá-lo todos os dias. ouvir mais, falar menos.

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as ideias são da Filipa (8 anos), os rabiscos são meus e o título é de outro hobbit. andámos 3 dias nisto. à hora de almoço sempre o mesmo pedido “sara, temos que acabar a nossa banda desenhada.”

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//repetição//

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todas as manhãs o mesmo percurso. às 8h55 é hora de levar os pequenos da Pré à escola. todas as manhãs às 8h55 há uma ou duas mãos cheias de hobbits que insistem “podemos ir contigo levar os da Pré? vá lá…!”

todos os dias passamos pelo ‘jardim das plantas carnívoras’ com muito cuidado, pelo ‘lago dos tubarões’, pela ‘rampa inclinada’, ‘as areias movediças’ e os ‘blocos de gelo’. pedem-me “podemos ir mais devagar?” querem saborear o que o novo dia tem para oferecer.

e como é que é possível dizer que não se há tanta coisa para ver neste caminho que se faz em 4 minutos e que teimamos em esticar? há uns meses eram os caracóis, as folhas que mudavam de cor, as árvores cujos nomes queriam aprender, as rolas empoleiradas nos cabos da electricidade. agora são as teias de aranha cobertas de minúsculas gotas de orvalho ou geada. uma exposição de design inteligente. graça comum.

hoje, enquanto fazíamos o mesmo caminho pela milionésima vez, foi-me dado a perceber que estes hobbits têm muito a ensinar sobre a beleza da rotina. o que pode parecer assustadoramente repetitivo pode efectivamente ser aquilo que nos salva os dias.

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solaris

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Solaris (1972), do russo Andrei Tarkovsky, trata da viagem do psicólogo Kris Kelvin a um planeta constituído basicamente por um oceano misterioso e que tem a capacidade de materializar memórias daqueles que o procuram entender e explorar.

é um filme rico e denso, despojado de técnica e efeitos especiais, apesar de ser à partida um filme de ficção científica. Tarkovsky quis despir a narrativa ao essencial e só não retirou qualquer alusão ao espaço por impedimento do autor do romance (Stanislaw Lem). o planeta solaris é pretexto para tratar assuntos como a persistência da memória, os relacionamentos, a procura por algo maior fora de nós.

as cenas longas, os diálogos e as inquietações, a teatralidade, o engenho dos planos e do que se escolheu mostrar ou deixar de mostrar cativou-nos cá em casa. foi uma boa porta de entrada para o universo Tarkovskiano e, segundo consta, a entrada mais fácil de todas. há filmes que continuamos a ruminar dias depois de os vermos. não fosse tão extenso e teria que o rever rapidamente.

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